
Não nos falamos a tanto tempo que pode parecer oportunista te escrever hoje. E é. O que aconteceu ontem me lembrou muito nossa amizade, aquele tempo lá no saudoso Jardim Joamar, onde encontrar os amigos exigia ir até o portão da casa deles e gritar em coro como num dueto desafinado, reforçando a última sílaba, vários “AnderSOOON, MarquiNHOOOOS, MiGUEEEEEL”. Não tínhamos as facilidades de hoje que mais distanciam que aproximam, mas essa distância não é exclusiva delas, a vida mudou, né? Eu casei, soube que você também, moramos na mesma cidade, mas conciliar agendas, encaixar a vida cotidiana com compromissos sociais não é fácil realmente.
Ontem relembrei como nós éramos tão iguais e tão diferentes. Tínhamos aquela paixão por nossos times, mas cada um com o seu, não aceitávamos o morno, aquele que não sabia a escalação, o hino ou o nome do terceiro goleiro. Respeitávamos muito mais um ao outro do que o torcedor do próprio time que não dividia essa paixão.
Éramos rivais, assim como nossos times, todo jogo era uma disputa. Na rua você era mais habilidoso. “Lembra aquela bicicleta que você deu na Rua dos Corretores?” Eu era mais grosso, isolava a bola no nosso campinho em Y que fazia curva. No videogame eram rachas homéricos, de horas. Desconhecíamos como melhoramos um ao outro, só percebemos bem depois, quando jogamos contra amigos distantes ou contra os da Rua dos Bobos.
Mudei de casa, saí do Joamar, meu time e eu vivemos ainda grandes momentos, talvez os maiores por um curto tempo. Depois veio o rebaixamento, sofri, porém aceitei como positivo um time grande pagar de verdade por isso. Passou, curou, mas ficou a cicatriz. Aí teve a queda do seu, nesse momento pensei na dor que você estaria sentindo, não por um lado sádico ou zueiro, mas com a real compaixão de um amigo, que respeita apesar de não gostar das mesmas coisas.
Seu time se recuperou com mais altos que baixos, ao contrário do meu. Junto com meus baixos vieram as gozações e o pior, o desdém, nunca de você, mas dos demais torcedores. Sei quanto você me queria como um rival forte, queria me vencer, ser melhor que o melhor e não bater em cachorro morto.
Em alguns momentos parecia que nossa rivalidade estaria viva em nossos times, como em 2011, por exemplo, mas isso passou muito rápido.
E então teve ontem. Nossa rivalidade agora voltou, mas o futebol anda estranho. Poucos se importam com a escalação do time, com o hino, ou o nome do terceiro goleiro. Hoje eles têm o Google, os apps, 390 canais de tv, podem colar ou buscar outras paixões.
Ainda assim, o que é verdadeiro permanece. Como uma boa rivalidade entre amigos. Então, amigo, espero ter voltado a rivalizar contigo e que nossas paixões sejam as maiores, nossos times sejam os melhores. Pelo menos pra mim e pra você.

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