Venny Soldan-Brofeldt

Artist, sculptor, and jewelry designer.

30 dias de Faith No More, dia 22

O show já é amanhã! Ainda nem acredito direito.

E agora, quem conta um pouco da sua relação com o Faith No More é a aniversariante do dia, Ju Damasceno. 😀

O final dos anos 80, ao menos pra mim, foi de uma estiagem musical horrorosa. Justo eu, que há muito já trocava os brinquedos pelos discos, assistia/ouvia uma enxurrada de teclados artificiais, coisas pop sem muita importância, nem mesmo aquelas gravadas pelas minhas bandas favoritas à época.

O R.E.M. ainda não tinha entrado na minha vida, eu nunca fui uma “roqueira de anel de caveirinha”, então, o jeito era “arrasar” na pista da falecida Up and Down, ao som de muito Erasure e Milli Vanilli.

Mas aquela virada de década me prometeria surpresas que eu levaria pro resto da vida e nem sabia. Chegou a MTV, novas bandas com uma pegada mais palatável, e claro, com vocalistas mais “gatinhos”. Afinal, isso ajuda bastante quando se tem 13, 14 anos. As meninas sabem bem.

Foi nessa virada de ciclo que eu também passei a gostar mais de rock. Até então, eu tinha os meus nacionais favoritos, e achava que o gênero, na essência, era alguma letra revoltada do Legião Urbana, que tava no auge.

Foi então que minha melhor amiga, até hoje, me levou pra dançar numa boate na Rua da Consolação chamada Woodstock. Uma matinê de domingo só com rock. Acho que foi ali que minha “chavinha” mudou completamente e, talvez, tenha ganhado uma dimensão tão grande na minha vida quanto a festa de 15 anos que minha família tava preparando pra mim, com o maior esforço.

Fui atrás, pesquisei, me encantei, descobri. E, curiosamente, foi nessa época também a minha primeira experiência com Faith no More. Um disco ao vivo gravado no Brixton Academy de Londres, lançado em 1990. Uma vizinha rica tinha. Porque naquela época de recessão de verdade, só quem tinha muita grana comprava artigos assim, logo que lançavam. E não era meu caso.

Mais curiosa ainda foi a minha primeira audição deles, também desse disco. “Edge Of The World”. A versão é maravilhosa, tocou demais nas rádios. Um namoradinho à época me dizia que era “música de strip tease”. Quase uma ‘sugestão’, que fique claro, nunca foi aceita. Ainda mais quando descobri, em algum videoclipe perdido na programação do “canal da música” o quão gatinho era o tal do Mike vocalista. Pensei: tiro a roupa pra ele, um dia, mas não pra você, né?

E veio junto com isso a loucura da vida que passa rápido demais, embalada por mais uma saraivada de hits, ao longo dos anos, que deram cor e som à minha passagem pra vida adulta, com um misto de revolta e doçura, como se fosse uma trilha sonora. Como se eu estivesse num “Alta Fidelidade” da vida real. Foi um jeito diferente de temperar e sonorizar as histórias, os amores, as desilusões e as alegrias que iam do “Easy” ao “Midlife Crisis”, em questão de segundos.

A minha paixão platônica pelo FNM só virou uma história real mesmo em 2011, quando a valsa dos meus 15 anos já tinha virado um passado bem distante e remoto. Acreditem.

Mike de Zé Pilintra, naquele SWU debaixo de chuva. Aquela energia. Aquele demônio no corpo. Aquela felicidade no meio da lama. Que me teletransportou pra aqueles tempos de alguma dureza e aquela deliciosa falta de responsabilidade e contas pra pagar. Pra nunca mais esquecer.

Os tempos eram outros, os amores também. Ouvi a minha preferida deles,  Evidence, abraçada com alguém que não era o Mike Patton, mas mereceu de fato meu strip tease pro resto da vida. Valeu esperar sem precipitações, aliás. Valeu tanto que até o Brixton Academy, aquele lugar do meu primeiro disco do FNM, fui conhecer com ele pessoalmente, aos quase 40 anos. Não eram eles tocando, mas a sensação de entrar naquele lugar foi indescritível.

E, como daquela primeira vez, mesmo tardia, vou me despir pra Mike e sua turma outra vez, um dia depois de completar 39 anos. Nada de erotismo, não: só uma maneira de ver a vida passar de novo como um filme na minha cabeça e no meu coração. E nada mais bonito e íntimo do que sentir sua história no palco em forma de música.

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